Retrato

 

Lembra-se do dia em que seus olhos não me ouviram

nem sua boca (surda) disse?

 

Vago olhar corria na pele sem nexo

(cadê a ousadia Expressão?)

Pernas, cujos pés travaram estaca

Não chegam, nem vão.

 

Jamais me esquecerá seu silêncio,

ainda que sua ausência não construa solidão em meu seio.

 

(…)

 

Afinal, moro nos lugares onde você desabita

Notou? Só nos vemos, quando nos desencontramos.

(O que mesmo diria você, senão o que sonhei que dissesse?)

 

Por isso odeio tanto.

Tanto, que me apaixonei por todas

as palavras que você estúpido não disse.

Naquilo que fora seu verbo, hoje reconheço

com vergonha uma voz triste, minha.

 

(…)

 

Ainda bem. Essa lesma muda foi você,

que me fez ouvir a parede enquanto, crente,

me dirigia à estrada sem caminho.

 

Na portaria do sem-fim, o inevitável

Vi seu corpo desmanchar como cascata,

sua imagem virar neblina.

E o afeto, outrora forte e bom,

se vestia de tédio, remorso, desgosto.

 

Como pode alguém ter amado um amor mesquinho?

Esse que dá ibope entre os tolos, que emociona os rasos

Popular, mas não humano.

 

Quando você sumiu,

descobri que o amava

apenas

porque um dia você mostrou não existir.

 

E eu, incapaz de sustentar um grande amor solitário,

embora real como a mentira,

notei por fim que era fraca.

 

Se me perguntarem onde está você, direi:

Ele se foi.

E volta?

Não.

Por sorte, o Amor é para os fracos.

 

 

 

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