Arquivo para janeiro \24\UTC 2012

 

ps. adoro como o ócio é inacabado

 

 

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em ócio

n.1

tive a impressão. de já ter visto a luz que escapa da íris. aquela que fica em meio ao colorido arco. some da vista em um estalo de tempo. sofre intempéries na umidade. tem efemeridade borbulhando. não sei se há nela mais que um arco, colorindo os olhos por alguns segundos. se ao menos o olhar escutasse..que música teria a visão?

 

Filha do sol, a sombra vive deitada ou escondida. É reflexo escuro no espelho do chão. Nosso pedaço bandido, assaltando os olhos. Insípida, inodora, mas color. Fosse mar e seria treva. Fosse treva e seria noite. Mas a sombra não tem estrelas, não deixa pegadas. Apenas acompanha um caminhar à revelia da cabeça no corpo.

 

 

(ps. Texto que talvez comece ou continue)

5º no 4º

Quinto andar. No lugar de janelas, duas portas, em um prédio velho e bege.

Cascas de tinta barata deixam entrever pedaços do cimento esticado com pressa, na época da construção, já faz pelo menos vinte e nove anos. Quem sair pela porta-janela, se deparará com uma estreita sacadinha, quase dois metros; e ao sair na sacada, encontrará uma mureta de quase meio metro que não protege do tombo; e se quiser o tombo, levará a queda de bem mais que dois metros aproximadamente, talvez quinze. Talvez doa.

Uma antena parabólica dorme sobre o teto, enquanto a televisão chuvisca e ilumina um homem deitado no sofá. As notícias fugiram do universo que contém a sala o quarto e uma cozinha sem geladeira. Ali um pouco de pó de café, esquecido sobre mesa. Não, não há gás para esquentar a água que pinga da torneira mono-rítmica. A lâmpada do quarto estourou. E curioso, ninguém notou como efeito os cacos espalhados pelo piso de carpet.

Os vizinhos sumiram de tanto anonimato: ninguém mora no edifício exceto o homem deitado no sofá. E enquanto ele faz o que faz, o dia amanhece com sol embora esteja frio. As horas tentam inutilmente algum freio, para acompanhar aquele sujeito esticado, mas é em vão.

Em frente ao prédio decaído, fica a Travessa Nestor de Castro onde muitos esperam o ônibus que levará ao serviço. Poucos ganham o suficiente para não sentir falta do dinheiro gasto com a passagem. Os motores reclamam som, enchem os ouvidos com o ar da pressa. A panificadora vende bastante “para viagem”, não há descanso para um café na manhã.

Aqueles, que não saíram da rua desde a noite anterior, ainda dormem, enquanto os que foram para casa ao final do dia já acordaram há mais de meia hora. As mochilas fazem doer às costas. É preciso carregar o mundo que pesa como areia acumulada em um saco prestes a furar. Os cigarros fazem acalento à garganta que, vez por outra, cantarola,  rouca, uma música. Não se sabe ao certo qual. Por suposição aquela que toca no rádio do cara que canta daquele jeito, ali na frente.

Não se sabe ao certo. Ocorre a impressão de que as pernas andam sem o resto do corpo, levando ao destino do hábito. Ocorre a imprecisão de que as mãos, mal sabem o que carregam. Depois do advento do polegar opositor, quando essas mãos foram promovidas a pinças, bem… Desde esse tempo nada de muito extraordinário mudou.  Gazes intestinais se preparam para sair. Um bocejo gera outro bocejo e outros porque há sempre sono atrasado entre os humanos trabalhadores de meu deus. Cada um com sua carteira CPF, registrados devidamente no mundo como cidadãos brasileiros; de pai e mãe tal; de idade qual; de RG Número. Mas talvez alguns nunca tenham conhecido algumas ditas… pessoas próximas.

Segundo o jornal, haverá chuva até o fim do dia. Deitado, ele alimenta seu tamagutchi e chora, porque segundo a tela do brinquedo, só lhe restam dois corações antes da morte. Geralmente sobram adjetivos na boca dos parentes de um falecido. Mas ele está mudo, corpo esticado contra o tecido, quase inerte no quinto andar de um prédio: velho e bege. Segundo o jornal, haverá chuva até o fim do dia.

O semáforo está fechado à boa disposição, à cordialidade ou aos olhos. Nos olhos. Lágrimas secas choram pelos olhos que as despercebe: é a pressa, só a pressa. Repentinamente a vida resignada cai, fulminada de tanta certidão de nascimento pouco validada ou experimentada – até que poderia ser. Mas o fato, é que o homem continua fazendo o que faz deitado no sofá, enquanto a televisão chuvisca na casa dele um punhado de ruídos.  Ele alimenta seu tamagutchi e chora, porque segundo a tela do brinquedo, só lhe restam dois corações antes da morte.

 

 

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