Arquivo para março \31\UTC 2011

pedaço

 

 

 

antes de ir, deixa a porta aberta para eu voltar…

 

 

 


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Chaminé: desabo desabafo

 

(Chopin – Nocturno em si bemol menor  op.9  n°1)

 

No momento em que o banco sentou-se em mim como acento, fiz pontuação na voz. De repente um lápis entre meus dedos, o sexto dedo, fazendo travessuras fora das linhas. As linhas que não estavam no papel em branco, sobre meu colo. Meu colo tornado um papel branco, onde dou asilo às palavras; no seu entorno: um contexto que cante aos ouvidos cansados das mesmas rimas.

Na trama que se forma, enredo meu corpo com a folha e viro livro cheio de nenhuma página escrita. Em adágio, faço poesia de amor e dor, de medo e desejo, de amparo e desespero. Das proezas da vida, a prosa tenta imitar e sai só vestígios pistas. Eu pisco certo ungüento sobre o papel e rumor me diz: lágrimas! Pausa nos soluços das vírgulas, dando espaço à respiração ofegante das ventas que sopram uma melodia qualquer em letras. Não entendo, nem agüento, só contemplo – eminente alguma coisa depois de terminada a trama. Sou o papel, o lápis, o choro e o riso. Sou o sustenido que toca dentro, produzindo uma música bemol. Minha sinfonia na letra está em escalas menores, melancólicas, bucólicas, apenas, a sós. Passo lâminas nas paredes do texto que me contorna, transformada e transtornada, eu, recortada em versos. Dou rima que não trará nem um sopro dos tormentos que chamarei acaso.

Ninguém reconhecerá a suspeita, o estratagema, o delito ao qual me presto. Sirvo meu corpo de instrumento, que venha a me calhar de propósito e com decência. Condecoração às frases, alívio aos travessões que me apresentam, dizem, dizem, dizem, dizem, dizem, dizem. E eu. Escrevo, descrevo, inscrevo. Perdida no meio das sílabas, um cansaço que me descanse, encontro. Consumo meu corpo em partes lentas, tenho um arsenal escritório e lentes na cabeça. Vomito o inesperado e vejo, desejo, prevejo, convirjo: um texto me consome e adoeço. Tenho fé e não tenho crença – sou um contra-senso que se condensa. De significante a insignificante e vice-versa, e vice-verso!

 

Depois de metamorfose feita, hipnótica seita, magnética relação com palavras: ouço todas, como nunca antes! No meio do percurso: entender e entediar e ocasionar, relâmpagos na ocorrência da escrita. (O ator dentro não mente, atormenta.) A madrugada passa e com ela esvai eu, por um lado de efeitos, um ralo de defeitos. Suspiro e páro, em um estado: melancólico como azul, nublado como cinza, inteiro como preto, aberto como amarelo, sangrento como vermelho, enlouquecedor como branco. O branco.

Depois de tanto, ainda me restam folhas em branco (!), sussurrando frases aos ouvidos. (Na noite anterior, durante a calada do sono, esvaziei enredo nas paredes do quarto, amanheço, e leio nas paredes vazias o escrito no vento: alguém pede palavras, dá-me de beber, tenho sede em quase morte. As palavras me matam de sede, um desabafo e um tabefe na minha cara, e eu aqui, teimando em existir com elas.) Poucas amenidades nas manhãs quando anoiteço.

Paciência… a puta letra me pariu.

 

 

Sofrer amores

 

(esboço de conceitos)

 

Excretar sonhos em palavras. Prometer juras eternas, até o segundo seguinte. Cambiar, o caminhar. Presença alterna ausência, e altera o presente. Potente, crescente, nem sempre pertinente: arrasador. Corpos cinzas, acabados pelo ardor que as paixões fazem. Ser chama, que ilumina e pede e consome; pulverizando peitos desavisados. Alguém escorre pelos pensamentos e inunda o corpo de desejos. Dor. Seduzir e dizer: o eixo do amor fora dos eixos. Intenso. Ver girar sua inconsistência produzindo ilusões insanas. Afogar-se em mar de angústia, e aprender a respirar água. Estar salgado, estar doce. Uma iminência – de subir a alturas infinitas e descer, ao mais baixo vil do inferno. Fazer destruição sorrindo. Casar absoluto e obsoleto. Onerar-se e transformar-se. Ter paciência com a efemeridade. Dormir um sonho que vivesse. Saboroso engano, lastimável. Multiplicar para, no entanto, mutilar os seres. Ainda assim, sempre que descrito, é discreto. Hemorragia e verborragia.  No mínimo: ouvir e explodir os tímpanos; costurar a boca e, falar; ver com janelas nos olhos. Na prática: face em face; corpo no corpo. Justamente, junto sozinho. Ter e não ter nomes. Querer, e não ser. Pretender e, não ter. Só, estar.  Um piscar sem fim. Não pára e atinge o cômodo onde resido.

Pôr nomes em nome do amor – que nem tem nome, porque não existe.

Prática de oscilações amorosas na fábrica de chamas – persiste. insiste. resiste.

 

Eminentemente: SENTIR-SEM-SENTIDO.

 


Lustração

 

quando não lusco, ofusco

pisco, pisco, pistas

antes um olho vivo

que dois cegos

 

vou, entre lusco e fusco

fuçando lupas naturais

para aposentar as lunetas

 

meus olhos, lusórios

de ilusão e luz me enchem

para ver se enxergo

 

 

 

Tempestade

 

 

Lágritas, que choram

chuvas que lá gritam

seus trovões na madrugada,

drogada pelas lágrimas

que gritam.

 

E choram

e choram

e chocam.

 

 

Atrás da porta

 

(uma prosa de parágrafos)

 

em ruínas, eu.

meus pedaços me condenam.

os percalços me estilhaçam.

insisto em juntar as partes que caíram de meu espelho que rachou, transformado em ruído.

tenho choque dentro.

torpor corre nas veias e tremo pelo terror.

(ao insuportável e avante!)

no fim, um peito explode e termina.

 

 

pelo avesso.

(morrer de amantes.)

 


 

AmarAmor

 

uma porção de pecado no amor. era preciso. pecaminoso embargo de sedução descabida. duas pernas se cruzam. enrosco do humano na pegada e no toque. jogo subterrâneo de enganos, engodos e fingimentos trocados. a voz pertencendo a corpos em frangalhos.  mas. na voz, o afeto. afeito a aproximar-se da voz que soa como sua. perto, ao alcance. consumada a carta que nunca chegará pois o correio não a tem – ilusão de correspondências. das expectativas que todas foram, das esperanças que todas desesperaram, dos sons não estéticos aos ouvidos, tudo paira como se império fosse da hipocrisia.  porém farsa: depois de tantas tortas de verdade na cara, resta transformar o par em poesia.

amar como amor não há.

amar como amor não pode.

amar como amando consome.

não suma, sumo da vida: amor.



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