Arquivo para setembro \28\UTC 2010

O final deste capítulo

Era viciado em capítulos. A cada passo fazia d’sua vida um solto, que se juntava ao livro que mal escrevia, pois, não sabia fazer letras. Casto era este, que aguardava sempre um fim de mundo na tentativa de parar agora co’aquilo tudo que insiste, que ele faz persistir sem intervalo. Na manhã de sábado soube da morte de seu pai e trôpego tomou de gargalo um litro de whisky.

Não falava c’o velho há vinte anos, ele havia morrido há três. Como soube desta morte em atraso? Cheiro de naftalina. Abriu seu armário com roupas de sair e logo sentiu aquele cheiro, camuflado de tédio pela naftalina. Esta era a responsável por impedir que as traças comessem o que não era comido pelo dono, o que estava morto no armário, o que não tinha vida em corpo algum. Assim eram suas roupas de sair. Não tem amigos, amigos de amigos não lhe querem pôr perto, colegas de trabalho o aposentaram, sua diarista falta sempre. Tem uma bengala que, posta ao lado da mesa, faz suporte para as pernas tortas e fracas do velho. Anda através da bengala, por toda a casa, fazendo o ruído do pau que bate na madeira insistentemente, até chegar ao cômodo da cozinha.

Soube da morte de seu pai hoje, três anos depois d’ela ter acontecido – hoje, a morte de seu pai lhe ocorreu. O velho sondava noventa e sete anos de rugas em um espelho mal lavado e coberto por poeira. Um enxame de lágrimas cobria o rosto do velho e lhe picavam o cerne quando via que, no espelho, ele era seu pai com cara de defunto. Defunto que lembra presunto de validade vencida, carcomido por toda sorte de lesmas e insetos que têm fome. Morreu para virar comida de verme.

Quem tem um espelho na cozinha? De que serve este ordinário? Como em uma foto, a cozinha estava cheia do que já foi alimento do mofo, de insalubre água e sal grosso. O espelho estava ali por esquecimento. O velho sofre de não lembrar o que um dia foi lembrança. Assim, esqueceu que há três anos faleceu seu pai e o funeral havia terminado. Onde ele estaria enterrado? Com gosto de salina na boca, e com líquido salino nos olhos, o velho sentia sede e chorava como cachoeira de lágrimas que caem despercebidas.

Hoje, soube, que seu pai morrera com noventa e sete anos e, neste ano, ele completaria cem. O maior contra-senso que alguém poderia fazer na vida, completar sem. O velho chorava por não ver seu pai preencher-se de contra-senso, já que não é possível deixar-se ver o senso que falta a alguém sem a tal da convivência. O velho não com viveu com seu pai; e agora sabe que ele morreu sem ter nascido; que nada é possível dizer sobre seu senso; que ele não tinha face nem pedaço; que ele era a naftalina do seu armário, a enxertar com outro cheiro aquele que significava solidão – o homem não usava roupas de sair. Um pai que não existe é a bengala, a naftalina, o espelho, a lágrima em pranto escondido.

O velho é órfão, e soube só agora, que seu pai faleceu, no ano em que teria completado cem, digo, sem. Os olhos, em torno da casa por dentro, denunciavam que suas cores eram cinza, marrom e ocre.  Tomou um litro de whisky de gargalo, andou com a bengala até a cozinha, viu-se no espelho, soube da morte de seu pai, e fez seu último capítulo: não é possível que alguém sobreviva sendo um pai morto que não se teve. A sua frente, um copo de água amarela e amarga, além de remédios a pronta-entrega. Olhou-se no espelho, e como quem se afoga na própria imagem acompanhou, vagarosamente, seu rosto definhar, como se insetos o comessem. Viu a ausência de sano, enquanto gozava do sórdido prazer que era ser comido por insetos. Quis não gostar, mas gostou. Quis tomar remédios para melhorar, exagerou. Estava morrendo, como quem assiste televisão pelo espelho da própria imagem.

Faleceu hoje, quando completaria sem, quando faria noventa e sete anos – idade com que faleceu seu pai, que hoje, teria cem.

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Cuidado

O ou engana.


Marca dois iguais,

Ou,

Separa dois distintos.


O ou engana.

Trespontar

Entre um ponto e outro ponto há um espaço. Entre este ponto e mais um, novo espaço. Deste grupo se fazem três espaçados pontos que dizem: continuo.

O princípio dos três pontos finais está em omitir o que existe entre os pontos. Digo: há frases entre os pontos, há frases escondidas. Três pontos finais, repito, é omissão.

Quem diz feio diz: procrastinam, os três pontos.  No entanto, hoje algo se nota. Nota-se que ‘trespontar’ é ocultar… Que há segredo em três pontos… Que há explicação em três pontos… Que há margem em três pontos.

Eles guardam um silêncio, um silêncio explícito que não cala – está escrito. ‘Holofotam’ algo que seria-poderia-quereria ser dito, e não o foi. São idos. São três repetidos.  São ilusão de fim.

Peço pausa, faço ponto. Peço alento, faço ponto. Peço fim, peço ponto.

Com três pontos, reafirmo um fim – três vezes. De fato, minto.

Se quero, peço três. Quero … e ele se marca assim: está ali – espreitado em mim – quando noto já quis. Quero em três pontos, então o que acontece não é digo, é faço. Quando eu ‘tresponto’ algo acontece e não sei, todavia, deixo rastro…três pontos.

(corre um boato: três pontos são ocultados idos, e repito, em texto, tal qual os pontos repetidos em número três.)

Do que sentem as bocas, num breu de encontro

(com sua licença poética:)

Com desespero, uma boca pede outra boca. Palpitam de angústia porque querem, mas não se sabem. Há explicação – bocas são cegas quando amam –  indução é seu destino de procura vã. Dito de outro modo: uma tem verdade da existência da outra, por intento. Amando, não falam com voz, falam com ato. Ato de busca inconseqüente por aquilo que não acham, denunciando o desejo que mora na tentativa de respiro que é ser possuído por outra boca. (como ficar sem ar.) De fato, perdem-se nos atos, porque pouco há de controle no que uma boca faz com outra boca que ama.

Uma boca olhada é uma boca de outro modo beijada. Elas abusam dos olhos que as olhem em procura, o que não faz outra coisa senão denúncia. Bocas que se beijam olhando não sabem o caminho que conduz uma à outra – perdidas estão, em atropelos. Procuram-se como cegos, desencontram-se como estúpidos, não se assumem por fim, se transviam. É engano, é profano, é barato, é besta, (mas pode ser bom).

Se encontradas, as bocas são ápices, são topos, são rarefação.  Contudo. Uma pede, outra não responde. Outra pede, uma não responde. Quando quase se encontram, mentem com palavras, se desfazem, sofrem. Transviar o caminho das bocas é preencher com palavras o que seria toque e suspiro. Já disse, bocas são cegas quando amam.

O medo das bocas é o perigo que elas carregam, pois a conseqüência da boca que toca em apelo é o fechar dos olhos. Quando as bocas abrem, os olhos fecham. Quando os olhos fecham, o que resta? Resta um sonho como disse outrora, e, restam bocas em apego. O amor da boca é protótipo de afeto, é exemplo de chamego, é lugar de desejo prestes ao insuportável -posto não há nada mais insustentável que o descontrole, digo, o ato: uma boca denunciada amando…

Entre as bocas não há vistas, há magnetismo, há perda de contato para ganho de contato. As bocas se amam fazendo o que os olhos não veriam, mas sabem (como sabem!)

Fazem mil pontos de mil encontros escondidos, por outras vias, por outros puxos e agarro.  O que fazem?’Ambivalem.’ Praticamente uma briga de amor com pazes, de pronto. Amam-se, se engolindo pela atração que faz tração entre uma e outra, e disto fogem a todo custo numa prática de beijo. Digo: querem, e ‘des-querem’ no mesmo momento, já que o risco das bocas é fazer do encontro beijo, separando-se do corpo, em devaneio.

Depoimento em sucintas palavras

(respiro uma loucura.)

O sentido do que escrevo, é que meu ‘escrevo’ não tem sentido. É a hora da desordem que fala enquanto eu não ‘ouve’, e que só vejo depois, só depois, com ouvidos nos olhos.  Então me dou conta em duplicatas do que fiz, e estranho a mim mesma, como ver outra imagem no espelho que não a familiar. É como acordar de outro mundo e abrir aspas para a verdade no papel, esta é a verdade. Como quero, deus, como quero (!) para ele sempre, sempre, voltar. Não sei mesmo que rumo eu ‘tomo’ (vinho) quando escrevo, até os pontos deixo de saber usar. Escrevo, então sei que não moro em minha casa. Muito me causa, tudo isso. Chega a ser difícil pensar em uma ordem, em um início, um meio, e parece sempre que o fim é um ponto interrompido… (pronto para ganhar mais dois colegas e virar omissão.) ‘Redigo’, é isto, aparece tanto a minha casa quando escrevo, e dela ‘trago’ (fumaça, cigarro) tantos presentes ordinários: verbos, ditos, palavras, timbres, sopros, arrepios, encantos. Meu escrito me sussurra, pois sou estranha de mim quando escrevo, é assim que sustento o meu vício de fugir para onde me encontro.

Pelúrio

(do quadro escorre uma tinta, como quem chora.)

Pus tinta sobre uma tela insana de azul pelúrio puro. Espalhei tudo sobre a mesa, sujei o sofá e fui para a cozinha tomar um café. Na volta. Tomei o pincel nas mãos como quem pega com gosto uma cintura e fiz contorno na tela; marquei território. Ali via de tudo, meu delírio cantava, minha voz berrava, minha meta ensandecida. Tudo na tela.

Ao acabar com a cena de horror para quem vê, e apetite para quem vive, sobrou um quadro.

O quadro era eu em despedaço, logo de cara que minha cara estava ali, torta. Se pudesse, comeria tudo aquilo. Pena que meu corpo não dá conta de tinta, não digere nada disso.

Ao final do transe, ouvi um som que saía detrás da porta: era uma máquina de música que tocava e eu despercebi. Não estava mais em minha casa, não estava mais ali. Onde estive?

Olhei meu rosto no espelho, sua cor era azul pelúrio. Olhei minha mão direta e minhas unhas eram azul pelúrio. Olhei para meus pés e eles estavam com gostas de azul pelúrio. Olhei para minha roupa e ela estava deformada, com camadas de azul pelúrio. Olhei para tudo a minha volta: estava colorido, mas com tons de azul, aquele que já disse, o pelúrio.

O ritmo era outro  da casa, do quarto, do quadro, do som, do que move e do que pára. Fui até a sacada naquele estado azulado. Olhei para a janela. Tudo como sempre. Olhei para as varandas, os vizinhos eram os mesmos. Olhei para o teto, continuava com aquela mancha de verniz mal passado. Olhei para mim, estava azul pelúrio.

Cansativo eu diria, até. Mas não, era fabuloso, adorável, invejável!

Precisava de um banho, como minha casa também. Vi na água ir embora tons cada vez mais claros do azul que me acompanha. Eles iam, iam, iam… Foram. Estava limpa, mas toda marcada, em bordas, por quadro azul pelúrio.

Forma, fôrma

Revisto-me de palavras, pois. Não passo de oco coberto de palavras, que me conformam em diversas roupas. Revisto-me de palavras, pois. Não deixo de crer que ainda é possível, o improvável jeito de querer sempre um recheio outro. Revisto-me de palavras, pois. Gosto-me assim, cheia de letras. Me revisto de palavras, ora pois! Assim tenho tantos sentidos curiosos e tortuosos que me dizem que sou, as palavras me dizem sou. Revisto-me de palavras, pois. Assim me visto, assim posso trocar de roupa, assim posso saber que nua sou ausência de palavra, alguma. Por isso peço às palavras que me contornem, que me encapem, que me aproximem. Caso contrário, seria a dureza de saber que sou oca, oca de vão, com coisa alguma dentro: mesmo sendo isto alguma coisa. Quem sabe o que é? Este tormento. Revisto-me de palavras, pois.

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