Grupo angustiado de células tentando invadir a parede uterina.  Estava lendo sobre o sinciciotrofoblasto. Pois é, prova de embriologia quarta-feira. As unhas roendo meus dedos, não vai dar tempo, muita matéria, pouca vontade, tanto sono, e um dia lá fora me esperando sair!  Deuses, que tédio.

Até que uma conclusão caiu por aqui como fez em Hiroshima na segunda guerra. Era o domingo trazendo aquela coceira: Mel,  é preciso ler Grande Sertão: Veredas! Ah vá, essa conclusão acabou comigo. Fez lembrar um quase desconhecido que disse:  ler Grande Sertão é uma travessia. Melhor que ninguém fique sabendo. Assim você pode não gostar à vontade. Mas, se você realmente não se sentir nem um pouquinho bamba com aquilo tudo, fique esperta.  Vê se desate o ouvido e atine para a vida, porque você deve estar crescendo para o lugar errado!

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Não gosto de despedidas, mas urge dizer adeus ao frio. Colocar a cadeira na varanda. Chamar os amigos. Experimentar conversas combustivas. E depois ficar levinho, porque nada melhor do que terminar uma discussão com um abraço bem apertado. Sabe como é: primeiro a gente se gosta, só depois a gente se preocupa com quem segura a razão. Dar a si mesmo o direito de não ter uma opinião formada. Dar-se ao direito de ficar em dúvida. Dar-se ao direito.

Direito de ser derrotado pelo sorriso gostoso do outro, contrariando minha seriedade, que insiste em me fazer sisuda. Coragem de tirar os freios que constrangem as expressões na face. Nessa hora, na varanda, alguns usam cadeiras, outros rede, ainda outros chão. Dois ou três fazem churrasco. Todos jantam, com e sem malícia. Sempre existe aquele que pula na piscina quase bêbado. E sempre tem aqueles que mergulham em olhares discretos e comburentes.

E porque é calor entre a gente, podemos olhar juntos para o nada. Para o céu com ou sem estrelas.  Com a paz exalando pelos poros, não porque seja feriado (amanhã é preciso pegar a pasta e voltar ao trabalho), mas porque colocamos a cadeira na varanda. Porque chamamos os amigos. E fizemos um churrasco.

 

1 minuto de silêncio

 

 

 

Revista Lama

 

Novo texto meu

no blog da R. Lama

com ilustração

de Júlio Vieira.

 

Fica o convite. É por aqui:

http://www.revistalama.blogspot.com.br/2012/09/a-porta-trancada.html

Retrato

 

Lembra-se do dia em que seus olhos não me ouviram

nem sua boca (surda) disse?

 

Vago olhar corria na pele sem nexo

(cadê a ousadia Expressão?)

Pernas, cujos pés travaram estaca

Não chegam, nem vão.

 

Jamais me esquecerá seu silêncio,

ainda que sua ausência não construa solidão em meu seio.

 

(…)

 

Afinal, moro nos lugares onde você desabita

Notou? Só nos vemos, quando nos desencontramos.

(O que mesmo diria você, senão o que sonhei que dissesse?)

 

Por isso odeio tanto.

Tanto, que me apaixonei por todas

as palavras que você estúpido não disse.

Naquilo que fora seu verbo, hoje reconheço

com vergonha uma voz triste, minha.

 

(…)

 

Ainda bem. Essa lesma muda foi você,

que me fez ouvir a parede enquanto, crente,

me dirigia à estrada sem caminho.

 

Na portaria do sem-fim, o inevitável

Vi seu corpo desmanchar como cascata,

sua imagem virar neblina.

E o afeto, outrora forte e bom,

se vestia de tédio, remorso, desgosto.

 

Como pode alguém ter amado um amor mesquinho?

Esse que dá ibope entre os tolos, que emociona os rasos

Popular, mas não humano.

 

Quando você sumiu,

descobri que o amava

apenas

porque um dia você mostrou não existir.

 

E eu, incapaz de sustentar um grande amor solitário,

embora real como a mentira,

notei por fim que era fraca.

 

Se me perguntarem onde está você, direi:

Ele se foi.

E volta?

Não.

Por sorte, o Amor é para os fracos.

 

 

 

 

Por sorte, o amor é para os fracos.

 

Revista Lama – julho

Ontem foi dia de um conto meu na Lama, uma experimentação na imagem de Danilo Oliveira.
Quem quiser, é por aqui:

http://revistalama.blogspot.com.br/2012/07/abra.html?spref=fb

Fica o convite!

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